Rua Augusta, em São Paulo, completa 140 anos, sob ameaça de destruição do Parque Augusta (e da memória do Projeto SP, do Colégio Equipe e do Colégio Des Oiseaux) pela construção de (mais) Prédios pela Especulação Imobiliária e pela Omissão dos Poderes Públicos Representativos

Os primeiros registros da Rua Augusta, na região central de São Paula, são de 1875, quando era apenas uma trilha de terra entre a Chácara do Capão(na altura da atual da Rua Dona Antônia de Queiroz) e o Morro do Caaguaçu(nome do córrego que brota na região da atual Avenida Paulista que significa Mata Grande).

 foto: Placa de sinalização viária da Rua Augusta, década 2010/reprodução pamelaandrade.blogspot.com

Com a inauguração da Avenida Paulista em 1891, um proprietário de terras na Chácara do Capão, o português Mariano Antônio Vieira, teria realizado gestões junto ao poder público para agilizar a implantação da futura Rua Augusta, promovendo a ligação do centro da Cidade de São Paulo, com sua mais nova avenida.

A Origem do Nome Augusta apresenta várias controvérsias por parte das pesquisas de historiadores. Alguns apontam homenagem a Augusta Cinegalia, órfã de pais, criada pela família do intendente(cargo equivalente ao atual prefeito) de São Paulo, que morreu em asilo de loucos. Outros dizem que o nome não faz reverência a quaisquer personalidades,apenas traduz a vontade do loteador Mariano Antônio Vieira de impor uma nomenclatura(Augusta significa Magnífica, Grandiosa) ao seu empreendimento imobiliário voltado para a  abastada aristocracia paulistana.

foto: Avenida Paulista, 1900(início do século XX) /São Paulo Antiga


A implantação da Avenida Paulista foi um plano urbanístico meticuloso, destinada a atrair a elite paulistana, próspera através da exportação das safras generosas de café e de um mercado consumidor internacional ávida e promissor. Seria a primeira avenida reta e larga da cidade, destoando dos labirintos estreitos que serpenteavam outros bairros.Denotava também a transformação da aristrocracia paulistana outrora mais provinciana e rural em um extrato social mais cosmopolita e urbano.

Neste contexto, surge a Rua Augusta, que neste primeiro momento é marcada pela construção de residências de alto padrão consumidas por famílias de grande poder aquisitivo e pela implantação de linhas de bonde.Em 1914, a Rua Augusta expande-se até a Rua Estados Unidos, endereço do Clube Atlético Paulistano, destino certo dos endinheirados da cidade.No começo da década de 1920, a Rua Augusta recebe pavimentação.

 Foto: Edifício Principal do Colégio Des Oiseaux, das freiras Agostinianas, inaugurado em 1907(para atender as filhas da aristocracia paulistana recém chegada às cercanias da Avenida Paulista,  e demolido em 1974, no terreno do Parque Augusta, esquina da Rua Augusta com Rua Caio Prado/DEDOC Abril


Na década iniciada em 1950, a região passa por transformação provocada pelo êxodo dos moradores residenciais e pelo início de processo de instalação de pontos comerciais de luxo, como cinemas, padarias, lojas, livrarias, lanchonetes.Nesta época acontece a desativação das linhas de bondes. A rua Augusta nas décadas de 50 e 60 foi um pólo comercial e cultural efervescente até a década de 70 quando começa uma lenta e progressiva degradação (que coincide com a implantação dos primeiros shoppings centers em São Paulo) que se intensificou na década de 80.

 foto: Rua Augusta com paralelepípedos, e linha de ônibus elétrico, década de 60/blog do juarez.

 FOTO: Rua Augusta com Carpetes Coloridos implantados pela Cia City, empresa do ramo imobiliário, 1973/Dedoc Abril

 FOTO: Rua Augusta com Carpetes Coloridos implantados pela Cia City, empresa do ramo imobiliário, para promoção de um de seus empreendimentos na região,1973/Dedoc Abril

foto: Rua Augusta, na altura do muro do Parque Augusta, com seus habituais alagamentos, provocados pela impermeabilização das ruas paulistanas e pelo bombeamento de águas subterrâneas,(afluentes do Córrego Saracura) para as guias e sarjetas da região, década de 80/Conteúdo Estadão

Na década de 90, principia-se um processo de revitalização da Rua Augusta, acarretado pela instalação de novos pontos comerciais como o Espaço Unibanco de Cinema(1993); Em 2000, na virada do milênio, há um renascimento da Rua Augusta com a explosão de novos comércios, teatros, casas noturnas destinados ao público jovem, caracterizando o Baixo Augusta, inserido no chamado Baixo Centro.



 foto: Rua Augusta à noite, 18 de maio de 1989/Norma Albano/Conteúdo Estadão



Atrelado a este florescimento comercial, começa um processo agressivo de especulação imobiliária, com aumento de aluguéis e demolição de casarões históricos para construção de prédios residenciais e comerciais, que se agrava a partir de 2010.


Foto: Casarão remanescente do do início de século XX (1913), na esquina da Rua Augusta com Rua Dona Antônia de Queiroz, demolido em 2010, para construção de prédio residencial pela construtora Esser./GaiaBrasil.com.br


 foto: Edifício Nicolau Schiesser,localizado à rua Augusta e projetado pelo arquiteto Rino Levi, em 1933, foi demolido em 2014 para dar lugar a prédio residencial/archdaily.combr

foto: Edifício Nicolau Schiesser, projetado pelo arquiteto Rino Levi, em 1933, descaracterizado nos anos 2010, localizado à rua Augusta,  foi demolido em 2014, para dar lugar a prédio residencial/archdaily.combr/SãoPauloAntiga

O terreno de 25 mil metros quadrados do chamado Parque Augusta resiste bravamente ao avanço da especulação imobiliária e à omissão do poder público municipal. Sediou o Colégio DES OISEAUX, das freiras agostinianas, que atendeu as filhas da elite paulistana até a década de 70, quando foi demolido(1974);também abrigou o Colégio Equipe que se notabilizou como pólo cultural e de resistência democrática da cidade desde sua fundação em 1968(vários músicos(Gilberto Gil, Caetano Veloso, Raul Seixas,Paulo Moura, Clementina de Jesus, entre outros se apresentaram por lá, convidados por um dos alunos do Colégio Equipe à época, o atual apresentador Serginho Groissman); Logo após a desativação do Colégio Equipe e a demolição do edifício do Des Oiseaux, o terreno do Parque Augusta deu lugar ao Projeto SP, realizado sob uma lona de circo, idealizado pelos irmãos Marcelo e Arnaldo Waligora, entre 1985 e 1987. Músicos e Bandas se revezaram no palco do Studio SP, de forma eclética, como Stanley Clarke, Oingo Boingo, Jethro Tull, David Byrne, Stray Cats, Iggy Pop, Baden Powell, Marina Lima, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira, Titãs, Tim Maia, Kid Abelha, Capital Inicial, Milton Nascimento, entre outros...




 fotos:Colégio Equipe, abrigado pela estrutura física do antigo Colégio Des Oiseaux, no terreno do atual Parque Augusta, década de 70/azoofa.com.br

 foto: Visão Aérea do Parque Augusta, entre Rua Augusta, Rua Caio Prado e Rua Marquês de Paranaguá/YorickNet

 foto: ingresso para a apresentação da banda Paralamas do Sucesso,no Projeto SP, em lona de circo no terreno do Parque Augusta, em 13 de maio de 1985/Acervo Folha

 Foto:Montagem de recortes de jornais paulistas de 1985, com manchetes sobre a inauguração do Projeto SP, no terreno do Parque Augusta/azoofa.com.br


foto: montagem de recortes de jornais paulista de 1987, sobre o fim do Projeto SP, no terreno do Parque Augusta, que seria deslocado para a Barra Funda pelos seus criadores, os irmãos Marcelo e Arnaldo Waligora/azoofa.com.br

A comunidade paulistana já rechaçou propostas de construção de shopping center, hotel, universidade e, nos últimos anos(década entre 2005 e 2015), de forma enfática, repudiou a construção de 5 prédios, residenciais e comerciais, propostos pelas construtoras Cyrela e Setin(para a qual o terreno teria sido vendido pelo ex-banqueiro Armando Conde), que já conseguiram aprovar o projeto no CONPRESP(órgão que deveria proteger e preservar o patrimônio histórico, arquitetônico, ambiental e cultural da cidade de São Paulo e que tem tido suas deliberações questionadas pela sociedade e por especialistas em preservação).


Em dezembro de 2013, o Prefeito Fernando Haddad(PT-SP), sancionou a lei 15.941 (fruto da aprovação em duas votações do PL 345/2006 pela Câmara Municipal de São Paulo), que traduziu a forte mobilização em defesa do Parque Augusta sem Prédios por toda a população de São Paulo. Em 2014 e 2015, a Prefeitura de São Paulo não havia implantado o Parque Augusta sem Prédios alegando falta de recursos. O Ministério Público do Estado de São Paulo intermedia negociação com as proprietárias do imóvel para que a Prefeitura de São Paulo utilize recursos financeiros obtidos com a indenização paga à cidade de São Paulo por bancos internacionais usados pela administração do ex-prefeito Paulo Maluf(PP-SP,partido que integra a base de sustentação dos governos municipal de SP e federal), envolvido em desvio de dinheiro público durante as obras da Avenida Águas Espraiadas(atual Jornalista Roberto Marinho);



 foto: Ativista Defensor do Parque Augusta Sem Prédios, durante manifestação popular ocorrida em 19 de agosto de 2013, na Vígilia Noturna Parque Augusta Sem Prédios, antes da sanção da Lei 15.941 pelo Prefeito Fernando Haddad(PT-SP), em 24 de dezembro de 2013/portal R7

 foto: I Festival Parque Augusta, dezembro de 2013/Reprodução Facebook Parque Augusta

 foto: Manisfestação em defesa do Parque Augusta sem Prédios e da sanção do PL 345/2006 pelo Prefeito Fernando Haddad(PT-SP) em frente à sede da Prefeitura de SP, no Viaduto do Chá, em 18 de dezembro de 2013, uma semana antes da sanção da lei 15.941/Rede Brasil Atual

foto: A rua(Augusta) Também é Parque(Augusta), janeiro de 2014, muro do Parque Augusta/Reprodução Facebook Parque Augusta


foto: Pic Nic à Moda Antiga em defesa do Parque Augusta, 08 de junho de 2014/Reprodução FaceBook Aliados do Parque Augusta


Foto: Verão Parque Augusta, janeiro de 2015/João Baptista Lago

foto: Reintegração de posse do Parque Augusta, 04 de março de 2015/Acervo Folha de São Paulo/UOL


 
foto: Reintegração de posse do Parque Augusta, 04 de março de 2015/Acervo Estadão


foto: Reintegração de posse do Parque Augusta, 04 de março de 2015/portal G1

No entorno do Parque Augusta e em toda a rua Augusta e adjacências, surgiram nos últimos anos mais de 50 empreendimentos imobiliários, encorajados pelo menor preço do metro quadrado, proximidade com equipamentos públicos e modais de transporte(ônibus, metrô e mais recentemente ciclovias implantadas pela gestão do Prefeito Fernando Haddad) e pelo novo Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo, aprovado em 2014, que incentiva o hiperadensamento ao longo dos eixos de transporte público. A Prefeitura de São Paulo teria inclusive eliminado o pagamento da outorga onerosa na região central de São Paulo(Operação Urbana Centro), para estimular a implantação de mais projetos imobiliários no centro de São Paulo.


 foto: Avanço da Especulação Imobiliária e Omissão do Poder Público da cidade de São Paulo entre 2005 e 2015, possibilitou implantação de mais de 50 empreendimentos imobiliários na Rua Augusta e adjacências, com notável queda da qualidade de vida e degradação ambiental, atmosférica e visual de toda a região./Reprodução Facebook

Em 09 de abril de 2015, foram flagradas cenas de retirada de árvores do Parque Augusta. No dia 13 de abril de 2015 a lista das 21.740 assinaturas coletadas entre 04 de março e 05 de abril de 2015 em defesa do Parque Augusta sem Prédios foi entregue ao Ministério Público Estadual de SP e à Prefeitura de São Paulo.

http://grupodobemestaredafelicidade.blogspot.com.br/2015/04/movimento-parque-augusta-sem-predios.html

foto: Retirada de árvore do Parque Augusta no dia 09 de abril de 2015/DanScan

 foto: construção de muro dentro do terreno do Parque Augusta pelas construtoras Setin e Cyrela, abril de 2015/Cris Albano

 foto: construção de muro dentro do terreno do Parque Augusta pelas construtoras Setin e Cyrela, abril de 2015/Cris Albano

 foto: construção de muro dentro do terreno do Parque Augusta pelas construtoras Setin e Cyrela, abril de 2015/Cris Albano
foto: construção de muro dentro do terreno do Parque Augusta pelas construtoras Setin e Cyrela, abril de 2015/Sil Albuquerque

foto:Abaixo Assinado com 21.740 assinaturas em defesa do Parque Augusta sem Prédios entregue à Prefeitura de São Paulo em 13 de abril de 2015/Heber Biella


As assembléias do Movimento Parque Augusta sem Prédios continuam a acontecer todas as segundas feiras, às 19 hs, na Praça Roosevelt ou Casa Amarela(consultar redes sociais e site do Parque Augusta);

https://www.facebook.com/parqueaugustaja?fref=ts

https://www.facebook.com/parqueaugusta?fref=ts

http://www.parqueaugusta.cc/ja/

 
 foto: Assembléia do Movimento Parque Augusta sem Prédios, 21/01/2014, Praça Roosevelt/reprodução Facebook Parque Augusta

Conheça a História de Luta do Movimento Parque Augusta Sem Prédios:





No dia 09 de maio de 2014, o Prefeito Fernando Haddad recebeu em seu gabinete no edifício sede da Prefeitura de São Paulo, o empresário dono da construtora Setin, Antônio Setin. Setin foi recebido pelo prefeito Fernando Haddad e por vários membros do primeiro escalão do poder municipal como o então secretário municipal de Cultura Juca Ferreira, o secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, Wanderley Meira, a presidente do CONPRESP, Nádia Somekh, o secretário municipal do desenvolvimento Urbano, Fernando de Mello Franco, o secretário de Negócios Jurídicos e a secretária Municipal de Licenciamento, Paula Maria Motta Lara. Em depoimentos gravados, Juca Ferreira e Nádia Somekh confirmaram o encontro de Haddad com Setin.






O Wikipedia também registrou a trajetória deste movimento que defende um símbolo do Direito à Cidade, Parque Augusta SEM Prédios(Se tiver Prédios, não é Parque Augusta.):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Augusta

Vídeo: Rua Augusta, Memórias em Prosa dos Narradores Urbanos.